17 de maio de 2012


Flexão de gênero em diplomas: ação afirmativa
Antonio Carlos Xavier Prof. Dr. Titular em Linguística - UFPE e Pesquisador-chefe do Nehte. Twitter: http://twitter.com/prof_xavier
Recife, terça-feira, 15 de maio de 2012
A língua cria e espelha a cultura de um povo. Ela veicula visões de mundo e reflete valores, costumes e tradições dos seus usuários; naturaliza modos de vida e indica o lugar que cada sujeito/a ocupa ou deveria ocupar na sociedade. Por muito tempo, as minorias sociais, étnicas, religiosas e de gênero ocuparam posições desprestigiadas na sociedade. Quando não eram brutalmente sufocadas em suas reivindicações, recebiam as migalhas que caíam da mesa dos opressores para se calarem – vede a política romana do panis et circenses.
O nascimento da Ciência Moderna, a criação da Prensa e as Revoluções Industriais, entre outros fatores, permitiram por uma razão ou por outra que as minorias fossem percebidas como sujeitos sociais importantes para o desenvolvimento coletivo da Humanidade. Como a história sempre foi predominantemente escrita por homens instrumentalizados por gramáticas “coincidentemente” masculinas, tais homens da história e da gramática preconizavam o uso do gênero masculino, seja nos substantivos representativos (a palavra “homem” é por vezes usada como sinônimo de “Humanidade”, ironicamente uma palavra feminina) seja nas expressões nominais ou nos pronomes substitutivos.
Chegamos a um momento da história da civilização em que o reconhecimento do direito usurpado das minorias começa a ser reconhecido e com ele a óbvia percepção da igualdade entre homens e mulheres. Como a força bruta não é mais a única medida para decidir sobre a superioridade entre os sexos, elas têm se mostrado bem mais eficientes do que eles em muitos aspectos. Por isso, são sempre bem-vindas ações afirmativas que visem ajustar situações injustas. No caso em tela, a Lei 12.605 busca reposicionar a mulher na sociedade e na língua, legalizando a lógica de que se a mulher tem os mesmos deveres do homem, por que não teria os mesmos direitos? Afinal, ela é tão humana quanto ele. A reparação deste débito histórico chega em boa hora, sobretudo em sociedades que se orgulham de serem regidas pelo Estado Democrático de Direito.
Recentemente o Supremo Tribunal Federal brasileiro aprovou a prática legal do aborto em casos de bebês anencéfalos. A tônica dos argumentos dos juízes naquele julgamento foi o direito da mulher fazer o que lhe aprouver com o próprio corpo. Não é à toa que o Palácio do Planalto e suas agências oficiais de notícias insistem no uso do feminino “Presidenta” nas referências à atual chefa da nação brasileira, Dilma Rousseff.
A curto prazo, a Lei 12.605, que começa a ser implantada no diploma universitário, pode passar despercebida por causa do pouco acesso que a brasileira e o brasileiro têm ainda ao ensino superior. Todavia, a médio e a longo prazos, esta lei pode mudar a autoestima da brasileira, bem como modificar a obsoleta visão do brasileiro de que o Brasil é deles, embora aqui elas sejam a maioria, segundo dados do IBGE (48,7% x 51,3%).
Além de resgatar o princípio da igualdade entre os seres humanos, no que se refere ao gênero, esta lei instaura outro aspecto fundamental à convivência social que é o princípio da flexibilidade. Juntamente com a tolerância, a flexibilidade constitui-se um ingrediente essencial para a sobrevivência pacífica entre homens e mulheres de diferentes classes sociais, ideologias, etnias e religiões sobre um mesmo espaço.
Não há dúvida de que as grandes mudanças começam com pequenas atitudes. Estas passam também pela língua, mediadora sem a qual aquelas jamais aconteceriam. A grandeza de valores de uma sociedade se revela e se solidifica na e pela língua, importante porta-voz da igualdade e da justiça. 

6 de maio de 2012


Paris multicultural x Paris à Louis XV

A diversidade étnica, cultural e religiosa é hoje um traço característico de todas as grandes megalópoles do mundo como Nova York, Londres, São Paulo. Com Paris não seria diferente. O fluxo de migração tem tornado a vida nestas grandes cidades um tanto plural, seja pela grande oferta de arte, gastonomia e lazer, seja pela oportunidade de trabalho em um mercado cada vez mais aberto e exigente. São cidades poliglotas, multifuncionais e intercontinentais.

A Paris multicultural é um fato. Ao mesmo tempo em que colore a cidade e enriquece a paisagem, esta multiculturalidade preocupa alguns parisienses pela possibilidade, segundo eles, da perda "petit a petit" da identidade francesa à Louis XV.

As universidade aqui têm sido bastante receptivas aos estudantes estrangeiros. Estima-se que haja 40% de estudantes de outros países nos cursos de mestrado e doutorado. Eles se espalham pelos 20 bairros de Paris e habitam aqueles considerados menos caros que são os mais temidos pelos conservadores franceses. 


Em geral, os que chegam para estudar em Paris são jovens, já graduados e que foram bons alunos em seus países de origem. Normalmente falam inglês fluente, são bem informados sobre a política e a economia europeias e dominam as novas tecnologias. Somada a tais características, a necessidade de superar as dificuldades naturais de um "estrangeiro" em terras alheias, como diria Camus, é o combustível extra que leva estes jovens a obterem um melhor desempenho acadêmico em relação a seus colegas franceses de curso. 

Por isso, uma grande parte dos mestrandos e principalmente dos doutorandos estrangeiros são absorvidos pelas empresas privadas e pelos laboratórios de pesquisa das universidades. Flexíveis e convictos de sua própria identidade, eles se esforçam para "fazer um pé de meia" e retornar aos seus países com uma melhor condição linguística e financeira. Voltar à Cidade Luz apenas para rever velhos amigos e contemplar La Tour Eiffel às margens do Siena. 


Porém, há quem chegue a Paris para "tentar a sorte", fugindo da crise econômica ou das guerras em seus países. Normalmente são mais velhos, com baixa qualificação profissional e sem muita disposição para se adaptarem ao estilo de vida francês. É para este tipo de imigrante que os parisienses mais torcem o nariz. Sentem receio de que eles se multipliquem na cidade e destruam seu modo de ser e de viver. 

As tensões entre nativos e estrangeiros ainda são veladas no seio da Île-de-France, mas começam a se aflorar em suas cercanias. Oxalá o novo Presidente que assumirá em outubro consiga conter os ânimos e implementar boas políticas de absorção para os estrangeiros que realmente queiram viver no Hexágono preservando sua identidade étnica, mas respeitando o estilo Louis XV. 

Esta é a esperança dos franceses e do mundo inteiro, pois Paris precisa continuar a ser "uma festa."

4 de dezembro de 2011

As aulas nas Univ. de Paris

A lei do menor esforço é bastante utilizada aqui na França. Pelo menos na língua e na jornada de trabalho, esta máxima é bem obedecida. Os franceses têm uma das menores jornadas de trabalho do mundo: 35 horas por semana. A crise e a recessão econômicas têm feito o governo Sarkozi repensar este regime de trabalho, medida muito pouco popular. No francês falado, é bem comum ouvirmos muitas abreviações de palavras (‘ados’ para adolescent, ‘arrond’ paraarrondissement, ‘univ’ université), o que nos deixa reticentes procurando o sentido delas.
A propósito das instituições acadêmicas do Hexágono, admiradas no mundo inteiro pelo prestígio de que gozam seus intelectuais das mais diferentes áreas das Ciências e das Artes, não sem razão, claro, há muita curiosidade sobre como seriam as aulas nas universidades e escolas de altos estudos de Paris.
Entrada principal da Universidade Paris-8 - Saint-Denis

Em geral, os professores universitários daqui têm uma carga horária de trabalho que varia de acordo com seu contrato, estabelecido já no edital do concurso, única forma de entrada nas faculdades públicas. O mais comum é o professor lecionar dois cursos semanais de 2h ou 3h cada um. Isto significa dizer que eles têm uma carga horária máxima de 6h por semana em sala de aula. Geralmente concentram ambas as turmas no mesmo dia e o resto dos dias da semana nem aparecem na instituição. Consagram o tempo restante à pesquisa e à produção de artigos e livros. A produção acadêmica deles é bem próxima a dos colegas do Brasil.
As aulas são muito iguais às que lecionamos nas instituições de educação brasileiras. Aliás, o modelo francês de academia foi o que nos inspirou e continua exercendo forte influência nos nossos docentes mais notadamente ligados às Ciências Humanas. Como estamos na passagem da metodologia professional construída no século XIX, na qual o professor é o centro do processo de aprendizagem por que carrega e transmite o saber ao aluno, a maioria das aulas funcionam em formato de conferência: com pouca interação e participação esporádica do aluno. O professor fala durante o tempo inteiro e os alunos, disponíveis em fileiras na sala de aula, só escutam, às vezes atentos, o que ele diz. Um ou outro professor, a exemplo do que acontece no Brasil, utiliza uma tecnologia diferente, para incrementar um pouco os encontros. Poucos docentes postam seus esquemas de aula em slides em datashow. A maioria mesmo, ainda utiliza “hand outs” distribuídos entre os alunos. Quase não escrevem na lousa, muitas ainda em ardósia.
A novidade que se vê na École des Hautes Étude e na Sorbonne, nas quais passaram ou estão os mais renomados professores das Ciências Humanas e Sociais (Foucault, Barthes, Ducrot, Recanati, estes dois últimos ainda na ativa) é a organização dos alunos em um retângulo para facilitar a visualização das faces um dos outros.
Entrada da École des Hauts Études - Paris
Outro ritual igual ao nosso é o de defesa de tese de doutorado. Herdamos deles, mas nossas arguições são intensas, ou pelo menos têm mais entusiasmo. Cinco ou seis doutores participam da banca, presidida geralmente pelo diretor da tese. Ele abre a sessão, distribui a palavra e também questiona o candidato ao final. O ritual francês de defesa é muito objetivo. Cada membro da banca elabora máximo três questões dirigidas ao candidato, que anota tudo e depois dispõe da palavra para se defender. Em geral o arguidor não contesta as respostas. A sessão acaba em menos de 3 horas e pronto, o candidato recebe o título e todos seguem para a comemoração custeada, certamente, pelo mais fresco doutor da instituição.

Sessão de defesa de Tese em Paris-8 - Saint-Denis
É isso. Na próxima crônica, vou tratar da diversidade cultural que faz a França ferver para o bem e para o mal, sem, no entanto, perder sua identidade de berço do Iluminismo.
À bientôt!

6 de novembro de 2011

Rumo às universidades parisienses


Voilà!

Em 1970, a Universidade de Paris foi dividida em 13 universidades. Fundada em 1170, sua primeira sede foi a Catedral de Notre-Dame que é hoje um dos principais pontos turísticos da cidade. Juntas as 13 universidades possuem cerca de 60 mil estudantes em todos os níveis: graduação, mestrado e doutorado. Recebe professores-pesquisadores em estágio pós-doutoral e por convênio entre importantes laboratórios de pesquisa do mundo.



Caio Xavier, 3 anos, diante da Catedral de Notre-Dame

O sistema de educação superior na França é majoritariamente público e gratuito e você, mesmo matriculado em uma universidade, pode assistir às aulas e aos seminários. Você escolhe o que deseja fazer pelo site, envia um e-mail solicitando acesso ao professor, que geralmente são bem receptivos, e, pronto, você já pode estudar com os maîtres de conférences franceses e outros convidados do mundo todo, em sua grande maioria, referências no que fazem, lendas vivas da Ciência.

Diariamente milhares destes estudantes se deslocam de suas residências em direção às universidades francesas da região de Paris, aquelas ficam dentro dos 20 distritos da região metropolitana. Há uma malha viária e ferroviária que previne engarrafamentos tornando o fluxo do trânsito normal, mesmo em horários de pico. Há muitos metrôs, trens urbanos, ônibus e bicicletas.

Estação Cluny La Sorbonne

Com o mesmo ticket (1,70 Euros em média), você tem direito a andar em diferentes transportes públicos durante 1h30m. Não há uma vigilância permanente sobre quem valida ou não seu ticket ao trocar de um transporte para outro. Mas é preciso fazê-lo sempre, porque vez por outra há blitz de seguranças da RAPT nas estações. Eles solicitam aos passageiros o ticket validado, ou seja, carimbado pela “catraca”. Por isso, você precisa mantê-lo sempre no bolso até o fim da viagem; nunca se sabe onde e quando será a próxima blitz. Aquele flagrado burlando o sistema de transporte, além de pagar a tarifa, tem seu nome e RG anotados e vai para uma espécie de “lista-negra”.

Uma das várias coisas legais que conheci aqui é o Vélib, que é um sistema de empréstimo de bicicletas por meio de um cartão-eletrônico pré-pago pelo usuário. Você passa seu cartão na base digital onde se encontra a bicicleta e tem até 45 minutos para entregá-la ou pegar outra, se quiser. Há aproximadamente 1800 estações de Vélib. O sistema pode ser usado por um dia, um mês ou até um ano, renovável sempre que o usuário quiser. E nem precisa ter endereço físico na Île-de-France para pedalar nas bicicletas públicas. Um turista pode fazer sua inscrição e conhecer toda a Cidade Luz de bike. A ideia é genial e visa preservar o meio-ambiente, facilitar a mobilidade e conservar a saúde do cidadão. Para isso, a prefeitura espalhou mais de 130 km de ciclovias pela cidade.

Estação Vélib - Você passa o cartão no painel digital e voilà, é só pegar ou deixar a bicicleta

Só não se anda mais de bicicleta por aqui porque o vento frio quando bate nas mãos e nas maçãs do rosto congela literalmente. Bom, nem tudo é perfeito. Também se fosse ficaria muito chato, né? Do que a gente iria reclamar, então?

No próximo post, vou abordar como são os seminários em Paris-8 e na École des Hauts Études. Se você tiver alguma curiosidade ou sugestão de tema, é só deixar na caixa de comentário.

À bientôt!

20 de outubro de 2011

A chegada (a Paris)

A partir de hoje começo a escrever pequenas crônicas sobre minha experiência como estudante em Paris. Do meu “observatório linguístico-acadêmico-social”, vou compartilhar com os leitores deste blog, um pouco das virtudes e controvérsias da Cidade Luz, especialmente dos que frequentam a esfera da intelligentia parisiense.

Quem nunca sonhou em visitar e até morar em Paris por algum tempo? Aos pouco mais de 40 anos, esta oportunidade chegou e certamente abracei-a com firmeza. Já estava no tempo de parar um pouco o quotidiano universitário de pesquisa, ensino e extensão para oxigenar as ideias, renovar as energias e "viajar" por outros horizontes da Ciência.

Simultaneamente havia sido aceito para estudar na Califórnia e em Paris. Diferentemente de Lulu Santos, não sei “levar a vida sobre as ondas”, por isso escolhi Paris. Lá surfaria na web do Laboratório Paragraphe (http://paragraphe.info/), um dos primeiros a pesquisar o hipertexto de modo interdisciplinar, desde que Lévy, Balpe e Clément ainda ensinavam lá na Unversidade de Paris-8.

Razões científicas para ir não me faltavam. Já havia completado exatos 8 anos desde que terminei o doutorado na Unicamp (http://www.iel.unicamp.br/). Quando isso acontece, o Cnpq e a Capes “aconselham” os docentes de programa de pós-graduação a fazer uma pausa nas atividades de pesquisa e ensino para se “reciclar” dentro ou fora do país.

Parti para este “ano sabático”. O outono pariense é mais frio do que o mais rigoroso inverno do Nordeste. Imagine o frio que estou sentindo, apesar da preparação psicológica e indumentária. Com uma média de 10 graus, vou caminhado pelo 14 "arrondissiment" (distrito) de Paris.

Moro na Cité, isto é, na Ciup (Cité Internacionale Universitaire - http://www.ciup.fr/). Uma espécie de condomínio para estudantes de várias regiões da França e do resto do mundo. O complexo de grandes e belos prédios conta com 40 casas.

Entrada principal da Cité Internacionale Universitaire – Paris

A ideia do governo francês, ao criar a Cité, foi integrar os povos misturando os estudantes entre as diversas casas. O complexo é completo. Na Cité há desde a biblioteca dos sonhos a restaurante universitário, teatro e cafés bem aconchegantes. Além disso, há quadras poliesportivas, campo de futebol, várias quadras de tênis e muito verde para se sentar no final de tarde ou para fazer caminhadas pela linda paisagem, claro quando o frio dá uma trégua. O Brasil também tem uma boa e agradável Maison. Estou bem abrigado na Maison d’Asie du Sud-Est.

Maison d’Asie du Sud-Est

O transporte público é pontual e passa na porta da Cité. A mobilidade é total e garantida para todos os que vivem aqui. Aliás, como os estudantes da Cité se distribuem pelas 13 universidades de Paris será o tema da próxima crônica.
À bientôt!

Crônicas de um pesquisador (em Paris): A chegada

17 de maio de 2011

Sobre Preconceito Linguístico na Rádio CBN

À Direção de jornalismo da Rádio CBN

Venho manifestar minha indignação com esta emissora após ouvir observações estapafúrdias do comentarista de política, Senhor Merval Pereira, bem intencionado, porém cientificamente desatualizado, em relação aos mais recentes estudos realizados no campo da Ciência da Linguagem.

Os comentários disparatados proferidos pelo jornalista aconteceram durante a emissão do dia, 13/05/2011, dentro do programa “CBN Brasil”, ancorado pelo jornalista Carlos Alberto Sardenberg. O comentário abordou supostos erros conceituais presentes no livro didático de Língua Portuguesa, “Por uma vida melhor”, da coleção “Viver, aprender” aprovado pelo MEC depois de avaliado por uma equipe de especialistas. O comentário pode ser ouvindo na íntegra acessando o link http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/merval-pereira/MERVAL-PEREIRA.htm e depois clicando no podcast intitulado “Livro didático não pode aceitar erro de Português”.

Solicitado pelo apresentador a comentar trechos do referido livro no qual aparecem afirmações tratadas por ambos como “polêmicas”, o comentarista declinou uma série de opiniões equivocadas e descabidas sobre tais trechos. Adjetivos como “absurdo”, “ilógico”, “distorcido”... permearam largamente a fala do jornalista sobre a posição dos linguistas, CIENTISTAS QUE SE DEDICAM A ESTUDAR O FUNCIONAMENTO DA LINGUAGEM E A DESCREVÊ-LA tal como ela é e não como ela deveria ser.

Durante e depois do comentário, fiquei me perguntando: com que autoridade científica este comentarista de política se arvora a tecer comentários avaliativos sobre questões de linguagem para as quais nitidamente não tem formação acadêmica?
O que ele denomina de “erro gramatical’ não passa do que, nós linguistas, cientificamente denominamos de variação no uso da linguagem, de acordo com o contexto situacional. Dizer: “Nós pega o peixe” ou “Os menino pega o peixe” são exemplos de variação na forma de usar a linguagem, tal como apontado corretamente pelo livro.
O comentarista confunde “falares regionais” com modo informal de utilizar a língua. E o que é pior, na sequência, ele afirma que só em algumas regiões é que se fala “errado” (“o fato de falarem errado em certas regiões não quer dizer que seja o português correto”). Certamente a região onde ele vive não se fala “errado” e muito menos ele falaria fora do “Português padrão. Não é bem isso o que uma análise superficial dos seus comentários nos permite ver.

Segundo o senhor Merval, “livro didático não pode ensinar errado”. Esse senhor precisa ser avisado de que não se trata de “ensinar errado”. Trata-se de reproduzir, em lugares adequados para isso, como em livros didáticos, por exemplo, as descobertas científicas de anos e anos de pesquisas, tendo como objeto de investigação diferentes línguas como inglês, francês, espanhol, alemão e também português. Pesquisadores sérios passam horas, meses e anos de suas vidas coletando dados, cotejando-os, analisando-os, guiados por metodologias e teorias rigorosas para realizarem suas pesquisas. Os resultados de todo esse trabalho não são meras impressões superficiais como as opiniões deste “ingênuo” comentarista que é mais um refém das concepções de ‘língua’, ‘erro’ e ‘gramática’ disseminadas em manuais de português escritos por pessoas desatualizadas sobre os novos achados da Ciência da linguagem.

No trecho do livro lido pelo apresentador do programa para ser objeto das observações do comentarista referia-se à possibilidade de alguém ser vítima de ‘preconceito linguístico’ se optar por falar “os livro” em lugar de “os livros”, forma padrão esperada. O “senhor sabe tudo” comete o impropério de dizer que tal afirmação daquele livro didático que seria “um absurdo total”. Entretanto, ele mesmo comete uma série de “erros de português” em seu desnecessário comentário. Coloco essa expressão entre aspas para acentuar que, cientificamente, não há “erro” no uso da língua, o que pode haver é inadequação linguística, ao se usar uma variação da língua fora do contexto adequado ou esperado.

Vejamos algumas das inadequações linguísticas cometidas por ele em seu lamentável comentário num dos mais importantes veículos de comunicação, o rádio, cuja maior parte da audiência desta emissora em particular, a CBN, é formada por ouvintes bastante escolarizados, muitos com nível de mestrado e doutorado, a exemplo de uma grande parcela dos linguistas deste país. Certamente, alguns ouvintes devem ter se incomodado bastante ao escutar tais inadequações, neste contexto de comunicação em que deveria predominar o uso formal da Língua Portuguesa. Vejamos alguns dos seus “deslizes de linguagem”:
a) “imagina” - A forma verbal adequada deveria ser “imagine” (você), ou seja, o comentarista deveria ter usado a 3ª. pessoa do singular no modo imperativo, pois dirigia-se ao apresentador com quem estava dialogando no ar. A forma verbal ‘imagina’ é relativa à 2ª. pessoa do singular (tu) do modo imperativo;

b) “você falá” – Há a omissão do ‘r’ final neste e em vários outros verbos e locuções verbais (aceitá, pode sê, vai fazê, estudá, transformá, justificá, querê, politizá etc.) que permeiam o comentário. Usando o mesmo rigor do comentarista purista, tal omissão constituiria uma inadequação de pronúncia do verbo, “ato falho” também classificado por muitos gramatiqueiros de “vício de linguagem”. Imagina você, leitor, como agora ficará a imagem deste jornalista depois de empregaR tantos verbos sem ‘r’. Seus ouvintes não vão lhe perdoaR.

c) “né? – A contração do advérbio ‘não’ com o verbo ‘ser’ empregado na 3ª. pessoa do singular, ‘é’, aparece com frequência no texto oral do jornalista. Se ele tivesse sido mais cuidadoso com a própria linguagem teria preferido a forma ‘não é ?’ e assim tiraria a naturalidade da fala própria do veículo rádio.

d) “ele tem mérito por outras coisa” – Na mesma linha do “esquecimento da língua padrão”, o jornalista esqueceu de fazer a concordância nominal no ar para todo o Brasil. Faltou-lhe inserir a letra ‘s’ na palavra ‘coisa’. Será que ele não percebeu que estava falando potencialmente para milhões brasileiros que ouviam a emissora naquele momento? Ou ele teria pensado que estava à mesa de um bar, verborragindo a seus amigos de imprensa para lhes parecer um intelectual, capaz de discorrer fluentemente sobre qualquer tema, até mesmo sobre aqueles para os quais jamais leu uma tese, nunca pegou em uma dissertação ou sequer folheou um artigo científico desta área de conhecimento, a Linguística?

e) “ele (Lula) em nenhum momento nunca, embora tenha resvalado”– Neste trecho aparecem duas inadequações linguísticas das quais o comentarista não se deu conta. Uma é o uso da dupla negativa (‘nenhum’ e ‘nunca’) que constituiria uma quebra da lógica no raciocínio cartesiano que o jornalista tanto advoga. Sabe-se que duas partículas ou palavras negativas numa mesma sentença tornam-na afirmativa. A segunda inadequação é a construção de uma frase com ‘anacoluto’, isto é, um fenômeno linguístico bastante comum na modalidade falada da língua, caracterizado pelo abandono de uma estrutura frasal com o imediato início de outra frase. Tal procedimento pode deixar o ouvinte atordoado. Será que o “sábio jornalista”, profundo conhecedor da Língua Portuguesa e das formas de raciocínio lógico, esqueceu-se destes detalhes?

f) “ele tem esse viés, tem essa mania” – A sequência das palavras ‘viés’ e ‘mania’ com o intuito de encadear uma sinonímia, ou seja, que ambas as palavras apresentem sentido similar é mais uma mostra de que o “perfeccionista observador” de supostos “erros” alheios também comete suas impertinências semânticas. A palavra ‘viés’ significa “obliquidade, linha, direção oblíqua” e ‘mania’ quer dizer “aferro a uma ideia fixa, teima, desejo imoderado”. Portanto, não são termos sinônimos e não deveriam ser usadas paralelamente como o fez o tão “atento” comentador.

g) “é uma tese completamente absurda” – Considerar ‘absurda’ uma tese qualquer que seja acerca da qual se nunca fez pesquisa científica para confrontá-la ou sequer leu um artigo científico sobre a questão é no mínimo uma atitude irresponsável. Absurdo é usar um veículo de comunicação tão poderoso como o rádio e a audiência de tão prestigiada emissora para fazer ecoar suas mais obsoletas concepções sobre linguagem, pois defender qualquer preconceito é um atentado ao ser humano, ao seu direito de ser. No que concerne à língua, este tipo de preconceito é um dos mais sutis e danosos porque silenciosamente paralisa o indivíduo no processo de construção de sua autoestima, da imagem de si.

h) “realmente eu não consigo alcança essa ideia” – É esperado que o comentarista admita sua limitação em alcançar essa ideia, pois sua análise não passa de um pitaco, de uma opinião intrometida em seara alheia, desprovida de quaisquer fundamentos científicos.

Há muitas pesquisas que provam as variedades linguísticas e que poderiam a abrir a mente deste senhor no que concerne ao funcionamento da língua. Trata-se de um fenômeno que acontece a todas as línguas vivas do mundo. Variação e mudança são movimentos naturais de fenômenos vivos. As línguas são assim, e por isso obedecem aos seus usuários que são seres criativos e dinâmicos. Fósseis imutáveis são apenas as concepções de alguns gramatiqueiros aos quais o comentarista político da Rede CBN, Merval Pereira, ajuda a congelar.

Penso que a direção de jornalismo da Rádio CBN deveria apenas pautar temas estritamente políticos, pois destes o Merval Pereira parece bem entendê-los.

Antonio Carlos Xavier – Professor titular em Linguística da UFPE.

7 de dezembro de 2009

I Seminário de Pragmática


I Seminário de Pragmática
impactos filosóficos, linguísticos e sociais


Palestrantes convidados:
Prof. Dr. Heronides Moura - UFSC
Prof. Dr. Pedro Lincoln - UFPE
Prof. Dra. Sandra Helena Melo - UFRPE

Mediador:
Prof. Dr. Antonio Carlos Xavier - UFPE/Nehte

Quando? 18/12/2009 às 9h
Onde? Auditório 1 do Centro de Artes e Comunicação da UFPE

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Procedimento para inscrição


Envie um email para o endereço nehte.ufpe@gmail.com com os dados abaixo:

NOME:
UNIVERSIDADE:
CURSO:
( ) ESPECIALIZAÇÃO ( ) MESTRADO ( ) DOUTORADO
ENDEREÇO:
TELEFONES:

E-MAIL:

Observação importante:
O assunto do e-mail precisa ser a seguinte expressão "Inscrição Seminário Pragmática".

Valores? 2k de alimento não perecível para doação à Campanha Natal sem fome

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Informações:
nehte.ufpe@gmail.com
Promoção: Nehte - UFPE e Pós-Graduação em Letras - UFPE
Apoio: Abehte e Pipa Comunicação

10 de outubro de 2009

Tecnologia a serviço da educação



É preciso saber usar os computadores a favor do aprendizado

O computador tem se tornado cada vez mais comum nas escolas públicas brasileiras, Até 2010, 93% das intuições de ensino vão contar com essa tecnologia, prevê o Ministério da Educação (MEC). Entretanto, apenas ter as máquinas nas escolas não representa ganho para o aprendizado dos alunos. Para o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Antonio Carlos Xavier, “o computador em si é apenas uma ferramenta sem qualquer compromisso educacional. O educador é quem deve visualizar todo o potencial pedagógico latente dessa tecnologia e usá-la a seu favor”. Segundo ele, para muitos professores, o computador ainda é “uma caixa preta, uma máquina inatingível e até mesmo um concorrente”, o que cria barreiras para o uso adequado desse recurso em muitas salas de aula.

Antonio Carlos Xavier considera ainda que a sociedade está vivendo o século da informação e não se pode mais ignorar que as tecnologias digitais permeiam irreversivelmente a vida social, econômica e educacional das pessoas. Nessa perspectiva, a escola teria papel fundamental no ingresso dos alunos na chamada “Era Digital”. Ele alerta, porém, que, “de nada adianta inaugurar laboratórios de informática de última geração, se os professores mal sabem digitar um texto no Word”. Daí a importância de cursos de formação que orientem os docentes, apresentando-lhes as melhores maneiras de se usar a tecnologia no cotidiano escolar. “É necessário que alguém incentive esse fazer, ‘pegue na mão’ do professor e conduza-o, passo a passo, de modo a fazê-lo acreditar no quanto o computador pode ser um poderoso aliado no processo de aprendizagem do próprio mestre e, por consequência, de seus alunos.”

Desde 1997, o MEC desenvolve o Programa Nacional de Tecnologia Educacional (Proinfo), com o objetivo de promover o uso pedagógico das tecnologias da informação e comunicação na rede pública de educação básica. De acordo com o diretor de infra-estrutura em Tecnologia Educacional da Secretaria de Educação a Distância do MEC, José Guilherme Moreira, além da distribuição de computadores para as escolas, o Proinfo também promove cursos de capacitação. “Atualmente, 328 mil professores e gestores estão sendo capacitados para o uso das tecnologias de comunicação e de informação nas escolas,” afirma.

Na escola

Os professores precisam estar atentos ao tipo de atividade que irão desenvolver com seus alunos. As tarefas propostas devem ser interessantes de modo que, além de atraírem a atenção dos estudantes, abordem assuntos importantes para sua formação. “Não basta levar os alunos para um laboratório de informática e pedir para que digitem uma redação no Word ou deixá-los pesquisar um tema na internet sem supervisão”, adverte Antônio Carlos Xavier. Outro ponto importante é deixar claro que as aulas com computadores não representam apenas diversão. Para tanto, é fundamental que as tarefas tenham objetivos definidos e que os resultados sejam cobrados.

Atento a essas questões, o professor de informática, Roberto Corrêa, do Colégio Neusa Rocha, em Belo Horizonte (MG), planeja suas aulas em conjunto com docentes de outras disciplinas. Além dessas aulas conjugadas, Roberto Corrêa faz uso de softwares educativos. Em um desses programas, o estudante cria uma cidade virtual e é o responsável pelo saneamento básico, construção de ruas e avenidas, criação de leis e geração de empregos, conta o professor. Para ele, “esse tipo de atividade permite que o aluno adquira habilidades em diversos campos do conhecimento, como geografia e matemática”.

Outro exemplo interessante de uso da tecnologia em sala de aula é o trabalho realizado pela professora Silvia Terezinha Rocha, que dá aulas de matemática e ciências também no Colégio Neusa Rocha. Todos os anos, ela realiza uma feira de cultura, sempre em parceria com o professor de informática. Ano passado o tema do projeto foi receitas culinárias de diversos países do mundo. Silvia conta que os alunos pesquisaram as características das nações e as comidas típicas de cada lugar. O resultado desse trabalho foi um livro de receitas entregue para as famílias dos estudantes. De acordo com a professora, o segredo para o sucesso do trabalho é não perder de vista os resultados: “é preciso que o aluno apresente as conclusões em forma de relatório, avaliação ou apresentação para a turma”.


Copiar e colar


Muitos professores afirmam que não utilizam o computador nas aulas porque os alunos ficam dispersos ou se valem da famosa prática do “copia e cola”. Para Antonio Carlos Xavier, a prática do plágio é anterior ao advento do computador, a nova tecnologia apenas facilitou esse processo. Ele afirma que “cabe ao professor propor atividades que evitem isso”. O docente precisa sugerir tarefas que levem os estudantes a consultar diferentes fontes de informação, inclusive a internet, mas que resultem numa síntese produzida pelo aluno e avaliada pelo professor.

É importante também ensinar aos estudantes que, além de ser um crime, a cópia é um atalho que não vale a pena, pois não há investimento intelectual e, consequentemente, os conteúdos não são aprendidos. “É preciso mostrar-lhes como é gratificante contemplar o produto do próprio esforço materializado diante dos seus olhos.” Mas, caso haja dúvida se o trabalho é mesmo de autoria do aluno, o docente, antes de avaliar, pode colocar um trecho do texto em um site de busca na internet.


Autor: Aline Diniz
Fonte: http://www.ceale.fae.ufmg.br/noticias_ler_materia.php?txtId=574